Numa certa tertúlia Benfiquista – mas não a ela fechada – foi lançada a ideia de um “movimento de Benfiquistas por David Luís”. Seria um movimento, dizia-se, cujo objectivo era sensibilizar o jogador a permanecer no Benfica e a recusar hipotéticas mas bem prováveis propostas de transferência.
Para o efeito, convidava-se cada tertuliano a escrever um texto no qual manifestasse, através de um bajular exaltador das qualidades humanas e do seu, afirmava-se, manifesto e acrisolado amor ao Benfica, o desejo intenso de um “fica, David Luís”…
Os textos consubstanciariam o substrato literário de uma página na net, para o efeito constituída, e seriam mais tarde compilados, certamente de acordo com a aderência, num livro a entregar ao jogador.
Tive a oportunidade de me manifestar acerca da ideia proposta e das suas correlativas intenções. Não aceitei fazer parte e colaborar. Aduzi em defesa da minha posição várias razões. Desde logo, intui um natural divisionismo que a ideia comportava, fonte de ciúmes e de atritos associados a estas intenções baseadas muito menos na razão e muito mais no coração.
Mas a minha maior discordância fundamentava-se na injustiça do objectivo do movimento em relação aos restantes heróis da brilhante conquista do Campeonato e da Taça da Liga, assim como da nova afirmação do Benfica nos areópagos futebolísticos europeus. Essas brilhantes conquistas foram a consequência do esforço e das qualidades futebolísticas de todos os jogadores, no seu apego à causa Benfiquista.
Assim como o Benfica é UNO e só nele, não nas suas partes, se deve manifestar o Benfiquismo, entendi que qualquer Benfiquista devia desejar não que ficasse entre nós apenas um jogador mas todos os jogadores, todos os heróis que tanto nos entusiasmaram e alegraram.
Todavia, a ideia avançou com a pompa e circunstância que lhe foi possível, tal como o previsto e desejado pelo “movimento”, Ou, naturalmente, pela sua "vanguarda revolucionária".
Depois, aproveitou-se um torneio futebolístico, obtiveram-se as licenças – ou condescendências, não sei precisar – mendigaram-se umas imagens e umas palavrinhas noticiosas da TV que detinha os direitos desportivos do evento, igualmente da Benfica TV, … e entregou-se o livro ao seu destinatário.
Do mal, o menos. Parece-me que a excessiva ou mesmo a normal exposição mediática de casos do tipo “in casu” seria bem capaz de provocar um maior e nefasto divisionismo quando reparamos que, pela pena da principal – segundo deu para perceber – inspiradora da ideia, o facto acabou, mesmo assim, por provocar alguns ciúmes. Talvez os únicos que perderam com esse recolhimento foram os egos, os germinantes e os convidados participantes, os quais viram um pouco ofuscado o seu momento de fama e glória que ficou de certo modo escalvado como efeito mediático.
Jurar por todos os santinhos que nunca foi de suas intenções provocar potenciais atritos só faz com que nos relembremos mais acuidadamente do aforismo “de boas intenções está o inferno cheio”. E com acrescida razão porque nesta, como em outras questões, os resultados práticos não são minimamente contemplativos com tão fervorosa e cândida devoção.
Não creio que o “movimento”, mesmo que extremamente sedutor, tenha tido ou viesse a obter algum resultado prático, se a situação ideal para ambas as partes, Benfica e jogador, se apresentasse. E a situação ainda não foi totalmente ultrapassada que o 31 de Agosto ainda vem longe.
Não se duvida de que algumas traquinices e dotes futebolísticos de David Luís não sejam sinal de um certo jogador “à Benfica” e de que ele não sinta o carinho pela Instituição e pelos adeptos.
Mas isso também Ramires, na hora da despedida e mesmo em outros momentos, manifestou e ninguém teve a “brilhante” ideia de lhe tentar dedicar um livro de exaltações, as mais diversas, com igual e pungente pedido. E tenho sérias dúvidas sobre se Ramires não teria tido, no esquema futebolístico do Benfica, tão ou no mínimo igual preponderância no que de bom a equipa produziu.
O mesmo se diga de Di Maria.
A união do balneário é o bem mais apreciado, apreciável e decisivo na conquista dos êxitos desportivos. Os homens não são máquinas e essa união faz-se de múltiplas e pequenas-grandes coisas, muitas delas quase a passarem praticamente despercebidas.
E desunir é facílimo porque essa união caminha sempre, como nos tem testemunhado a prática, em bicos de pés sobre superfícies muito movediças e eriçadas de espinhos que espreitam a cada canto.
O que se verifica agora, passado o momento de maior frenesim exaltante, é que muitos dos entusiastas e contribuidores da ideia torcem o nariz, numa de treinadores em posição privilegiada porque após a contenda e o resultado, ao facto de não haver por ali aquela competência, vontade e garra que noutros tempos se manifestava.
A culpa é obrigatoriamente do treinador, sentenciam, porque “errou” ao colocar as “peças” e não soube incutir essa garra. De David Luís é que não foi, até porque ele se portou durante todo o jogo como o modelo do futebolista ímpar a que nos habituou, inclusive nos aspectos disciplinares!... Não se esperava, naturalmente, que ele correspondesse com menos amor a amor tão idolatrado, amor que só a ele viu como o bom destinatário do seu merecimento!
Certamente, até é bem capaz de não se tratar do mesmo treinador!...
Não se afirma que essa falta de garra seja uma consequência, ainda que ténue, dos tais ciúmezinhos de que falaram os autores e impulsionadores da ideia do movimento objectivamente “separatista”, numa abordagem real e sem subtilezas paliativas. Ou, particularmente, da saída de Di Maria ou Ramires, certamente porque não conseguiram a mercê de uma exaltação petitória em regra como o seu colega. E muito menos das posições assumidas, de certo modo inesperadas, por Luisão e Cardozo, também eles órfãos de tais “carinhos”.
Todavia, não incentivar motivos de potencial divisionismo, isso nem passou, e devia ter passado, pela cabeça de ninguém que deu contributo ao “movimento”.
Como há pouco disse um “expert” na matéria, actualmente o “amor à camisola” dos jogadores é o amor à camisola que mais lhe paga. A cor actual da camisola do jogador é a do profissionalismo pagante.
Observe-se o caso de Luisão – e dispenso-me até do de Cardozo – que no ano passado, antes do aumento salarial, dizia alto e bom som que o seu maior desejo era acabar a carreira no Benfica.
Só com base naquele actual princípio do “amor à camisola” é que as suas posições hodiernas não causaram espanto entre os Benfiquistas.
Mas Luisão também não interessa, não é verdade? Ele também não teve a sua quota-parte nos êxitos do Benfica! O que se sabe é que não mereceu livro nenhum que lhe refrescasse o ânimo, lhe apelasse ao coração cheio de “amor”, e, naturalmente, pode ter-se sentido traído no coração dos Benfiquistas e na miragem de uns euros a mais na sua conta bancária.
De acordo com a divisa “e pluribus unum”, ainda sou dos que julgam que o Benfiquismo é o amor ao UNO, ou seja, ao Glorioso Benfica, e não às suas partes depois de nelas colocar divisórias.
Naturalmente que isto não faz com que abjure os egos que, em certos momentos e circunstâncias, possam sentir maior afecto por algumas dessas partes.
Mas não compreendo que esses afectos, que esses egos, se possam de algum modo sobrepor ao UNO, que eles não tenham sempre e unicamente presente o supremo bem do Único e Glorioso Benfica!
A idolatria da parte é, se não a negação, ao menos a redução do afecto ao TODO.
Para o efeito, convidava-se cada tertuliano a escrever um texto no qual manifestasse, através de um bajular exaltador das qualidades humanas e do seu, afirmava-se, manifesto e acrisolado amor ao Benfica, o desejo intenso de um “fica, David Luís”…
Os textos consubstanciariam o substrato literário de uma página na net, para o efeito constituída, e seriam mais tarde compilados, certamente de acordo com a aderência, num livro a entregar ao jogador.
Tive a oportunidade de me manifestar acerca da ideia proposta e das suas correlativas intenções. Não aceitei fazer parte e colaborar. Aduzi em defesa da minha posição várias razões. Desde logo, intui um natural divisionismo que a ideia comportava, fonte de ciúmes e de atritos associados a estas intenções baseadas muito menos na razão e muito mais no coração.
Mas a minha maior discordância fundamentava-se na injustiça do objectivo do movimento em relação aos restantes heróis da brilhante conquista do Campeonato e da Taça da Liga, assim como da nova afirmação do Benfica nos areópagos futebolísticos europeus. Essas brilhantes conquistas foram a consequência do esforço e das qualidades futebolísticas de todos os jogadores, no seu apego à causa Benfiquista.
Assim como o Benfica é UNO e só nele, não nas suas partes, se deve manifestar o Benfiquismo, entendi que qualquer Benfiquista devia desejar não que ficasse entre nós apenas um jogador mas todos os jogadores, todos os heróis que tanto nos entusiasmaram e alegraram.
Todavia, a ideia avançou com a pompa e circunstância que lhe foi possível, tal como o previsto e desejado pelo “movimento”, Ou, naturalmente, pela sua "vanguarda revolucionária".
Depois, aproveitou-se um torneio futebolístico, obtiveram-se as licenças – ou condescendências, não sei precisar – mendigaram-se umas imagens e umas palavrinhas noticiosas da TV que detinha os direitos desportivos do evento, igualmente da Benfica TV, … e entregou-se o livro ao seu destinatário.
Do mal, o menos. Parece-me que a excessiva ou mesmo a normal exposição mediática de casos do tipo “in casu” seria bem capaz de provocar um maior e nefasto divisionismo quando reparamos que, pela pena da principal – segundo deu para perceber – inspiradora da ideia, o facto acabou, mesmo assim, por provocar alguns ciúmes. Talvez os únicos que perderam com esse recolhimento foram os egos, os germinantes e os convidados participantes, os quais viram um pouco ofuscado o seu momento de fama e glória que ficou de certo modo escalvado como efeito mediático.
Jurar por todos os santinhos que nunca foi de suas intenções provocar potenciais atritos só faz com que nos relembremos mais acuidadamente do aforismo “de boas intenções está o inferno cheio”. E com acrescida razão porque nesta, como em outras questões, os resultados práticos não são minimamente contemplativos com tão fervorosa e cândida devoção.
Não creio que o “movimento”, mesmo que extremamente sedutor, tenha tido ou viesse a obter algum resultado prático, se a situação ideal para ambas as partes, Benfica e jogador, se apresentasse. E a situação ainda não foi totalmente ultrapassada que o 31 de Agosto ainda vem longe.
Não se duvida de que algumas traquinices e dotes futebolísticos de David Luís não sejam sinal de um certo jogador “à Benfica” e de que ele não sinta o carinho pela Instituição e pelos adeptos.
Mas isso também Ramires, na hora da despedida e mesmo em outros momentos, manifestou e ninguém teve a “brilhante” ideia de lhe tentar dedicar um livro de exaltações, as mais diversas, com igual e pungente pedido. E tenho sérias dúvidas sobre se Ramires não teria tido, no esquema futebolístico do Benfica, tão ou no mínimo igual preponderância no que de bom a equipa produziu.
O mesmo se diga de Di Maria.
A união do balneário é o bem mais apreciado, apreciável e decisivo na conquista dos êxitos desportivos. Os homens não são máquinas e essa união faz-se de múltiplas e pequenas-grandes coisas, muitas delas quase a passarem praticamente despercebidas.
E desunir é facílimo porque essa união caminha sempre, como nos tem testemunhado a prática, em bicos de pés sobre superfícies muito movediças e eriçadas de espinhos que espreitam a cada canto.
O que se verifica agora, passado o momento de maior frenesim exaltante, é que muitos dos entusiastas e contribuidores da ideia torcem o nariz, numa de treinadores em posição privilegiada porque após a contenda e o resultado, ao facto de não haver por ali aquela competência, vontade e garra que noutros tempos se manifestava.
A culpa é obrigatoriamente do treinador, sentenciam, porque “errou” ao colocar as “peças” e não soube incutir essa garra. De David Luís é que não foi, até porque ele se portou durante todo o jogo como o modelo do futebolista ímpar a que nos habituou, inclusive nos aspectos disciplinares!... Não se esperava, naturalmente, que ele correspondesse com menos amor a amor tão idolatrado, amor que só a ele viu como o bom destinatário do seu merecimento!
Certamente, até é bem capaz de não se tratar do mesmo treinador!...
Não se afirma que essa falta de garra seja uma consequência, ainda que ténue, dos tais ciúmezinhos de que falaram os autores e impulsionadores da ideia do movimento objectivamente “separatista”, numa abordagem real e sem subtilezas paliativas. Ou, particularmente, da saída de Di Maria ou Ramires, certamente porque não conseguiram a mercê de uma exaltação petitória em regra como o seu colega. E muito menos das posições assumidas, de certo modo inesperadas, por Luisão e Cardozo, também eles órfãos de tais “carinhos”.
Todavia, não incentivar motivos de potencial divisionismo, isso nem passou, e devia ter passado, pela cabeça de ninguém que deu contributo ao “movimento”.
Como há pouco disse um “expert” na matéria, actualmente o “amor à camisola” dos jogadores é o amor à camisola que mais lhe paga. A cor actual da camisola do jogador é a do profissionalismo pagante.
Observe-se o caso de Luisão – e dispenso-me até do de Cardozo – que no ano passado, antes do aumento salarial, dizia alto e bom som que o seu maior desejo era acabar a carreira no Benfica.
Só com base naquele actual princípio do “amor à camisola” é que as suas posições hodiernas não causaram espanto entre os Benfiquistas.
Mas Luisão também não interessa, não é verdade? Ele também não teve a sua quota-parte nos êxitos do Benfica! O que se sabe é que não mereceu livro nenhum que lhe refrescasse o ânimo, lhe apelasse ao coração cheio de “amor”, e, naturalmente, pode ter-se sentido traído no coração dos Benfiquistas e na miragem de uns euros a mais na sua conta bancária.
De acordo com a divisa “e pluribus unum”, ainda sou dos que julgam que o Benfiquismo é o amor ao UNO, ou seja, ao Glorioso Benfica, e não às suas partes depois de nelas colocar divisórias.
Naturalmente que isto não faz com que abjure os egos que, em certos momentos e circunstâncias, possam sentir maior afecto por algumas dessas partes.
Mas não compreendo que esses afectos, que esses egos, se possam de algum modo sobrepor ao UNO, que eles não tenham sempre e unicamente presente o supremo bem do Único e Glorioso Benfica!
A idolatria da parte é, se não a negação, ao menos a redução do afecto ao TODO.